no deserto de areias finas...
Quando se imagina longe da tormenta, mais uma onda nos atinge.
Seria fraqueza ou a tempestade que é realmente muito forte?
E aonde estariam os seus substitutos?
Todos náufragos, e a quem já nem desejo mais lançar uma bóia de salvação. Os observo em um mar revolto indo cada vez mais longe, agitando os braços, acenando e clamando-me por um meio de retorno. Não mais desejo lançar-me neste oceano trubulento. Nem mesmo em sua calmaria para reencontrar os mesmos náufragos ou os que possuem um diferencial não suficientemente consubstancioso. Virando de costas aos efêmeros, encontro a minha frente uma paisagem que nunca desejaria a tempos remotos. Um deserto misterioso e completamente vazio. Nada ergiudo. Nada construído. Ninguém precisando de minha ajuda. Ninguém a quem eu possa salvar. Ninguém que no meio do caminho que possa vir a me salvar, a dar-me a mão quando meus longos passos parecerem inúteis e cansados. Nada além de areia seca e fina, que escorrega sob meus pés e espalha-se modificando o terreno por onde passo.
Ouço os gritos constantes de meus náufragos abandonados. A hora é agora. Alguns passos para trás e permaneço. Retornarei com alguns marinheiros para o barco e navegarei as ondas turbulentas rumo ao horizonte fático e previamente traçado a minha frente. Destino consumado e previsível, ainda que com seus detalhes ocutos. Deste destino azulado, embebedado de marinheiros e salvamentos, apoios e descansos, já não sinto a impetuosa vontade de conhecer e desvendar seus mistérios pequeninos.
Ainda sem olhar para traz, com o deserto em minha frente. Penso em tudo o que o lado contrario teria a me dar. A previsibilidade. O azul incansável. As águas com o brilho prateado do sol. A calmaria. A segurança. E meus náufragos a nadar, clamando-me.
A brisa traz aos meus cabelos o pó seco da areia. Meu deserto me espera. O gosto amargo de seu total vazio e abiguidade é muito mais curioso e projétil que o real cheiro de gosto do mar. O vazio de meu deserto se realizará em conquistas. Seria eu capaz de construir um mundo novo neste lado seco e completamente só?
Passos. Passos.
Longos passos. E corro.
E os meus náufragos ficam para traz. E não mais lhes confino a esperança de meu retorno. Pois a mim mesma não confiaria em retornar.
Se o doce se tornou amargo por duas vezes...talvez o certo seja buscar novos sabores em terras distantes e montanhosas. Novas conquistas com muito mais suor. Conquistar o inimaginável e tornar-se o imponderável.

