a fortiori
nã.
Não percebes que a hora é o agora.
E o que se espairece no tempo se transforma em espaço, abertura de abismos entre eu e você.
Tento construir uma sólida ponte, que nos conecte em plena e nítida transmissão.
Mas sua falta de coragem, de desejos e ações realizatórias (e satisfatórias) liquidam os alicerces de minha estrutura. Lá de cima observo pedacinhos de minha ponte caindo um a um, lentamente, como que em câmera lenta...
E com os passos morbidamente freados por você, reluto contra meu desejo de retornar ao meu cantinho seguro. Talvez seja por simples curiosidade, de saber aonde isso vai dar. Mas talvez seja por querer provar a mim mesma que existe algo mais em tudo isso. Que o tempo e o espaço não se formaram inutilmente em vão, e que essa última chance possa sim ser duradoura e (merecidamente) favorável.
Apenas dispenso todo e qualquer tipo de desapontamento. E cada deslize é uma peça a menos em minha ponte, retraindo meus passos e minha vontade de estar em sua presença, na qual não sei se deposito minhas crenças ingênuas e intolerantes, ou se é apenas pura vaidade de uma inconformância que não quer calar.
E aí? Tudo realmente mudou? Ou em breve retorna ao estado passado de seus atos? O estado passado, meu mais recorrente temor (e nessas horas, sou eu quem retira um pedaço ou dois de minha ridícula e tímida ponte...). Estanco. Penso em retornar ao meu porto seguro. E não tentar algo que pode ser em vão.
Talvez não seja o caminho que construo o que vai me levar ao seu lado. Talvez, você deva construir algo novo e mais sólido, para que me sinta segura em caminhar, e venha me buscar.
Derrubo minha ponte patética e despedaçada.
À nova trajetória. Mas a ação não se faz de supostas teorias empregadas em palavras dissolvidas ao vento...
fim de tarde, então
Tardes aflitas no frio atônito. Descalço e meus receios escorrem pelas mãos.
Chão frio, tarde supostamente ocupada. Ócio do corpo, ocupação da mente. Milhões de palavras sem freios invadem minha mente e gelam o peito. Nem um som externo. Tampouco silencio aqui dentro de mim.
Esqueça de suas preocupações por breves segundos. Respiração de quem deseja o que não se tem, de quem quer saber o que não se comprova.
O corpo na cama teme que escutem seus receios. Pede que escorram suas tormentas por entre os lençóis. E que talvez, em minutos de sono, lembranças e futuros se encontrem as vontades internas que se manifestam em suspiros e olhares perdidos na janela.
A cada dia, a cada cheiro, a cada gole de café. Um pensamento entra em cena, e toma as rédeas da razão, guiando pelos caminhos vagos da emoção.
farfalhar das asas (tomara que) incansáveis
E o que irá fazer quando todos que a circundam padecerem em sua contemplação?
Suas mosquinhas de plantão...eternas mosquinhas... sempre ao seu redor, farfalhando as asas em contentamento. Basta um sorriso e desabrocha um brilho no olhar... ah! as mosquinhas....doces e sempre presentes!
Deu-lhes nada. Nada lhes prometera... e de fato não os quer e se quer desejou-os um breve momento. Mas, sua presença lhe traz o conforto nos dias mais nublados. Ergue esperanças de que sim, talvez seja uma pessoa amável. Sim, de que é possível um dia fazer alguém feliz e ter alguém ao lado.
Oh mosquinhas... Nunca desapareçam. Se um dia ajeitarem suas vidas e resolvam seguir em frente, e a deixar então... o que fará? Oh mosquinhas. Levem-na consigo. Pois de muito afago precisa uma garota. E de seus quentes olhares e preciosos elogios seus ouvidos não devem viver sem! Desapego e desemparo... resta inerte ao sofá como um animal ao relento na relva. Nada mais espera por ela. E tudo ela espera do nada.
Ta. Tudo bem, nunca os quis e nunca os verá em seu futuro. Mas como é agradável ter suas mosquinhas e ouvir seu bater de asas fracas! E quando não restar uma sequer? Cansadas de bater asas em vão. Cansadas de receber rajadas de vento que as levam para longe e terem de lutar contra brisas para chegar um pouquinho mais perto. Só um pouquinho mais. Não existe espaço na vida alheia para aqueles que amam. Não existe contemplação nos olhos do admirável.
E de quem mais se sente falta, podes ter a certeza de que a sua falta não é sentida com tanta freqüência.
Portanto, compre mais um travesseiro para abraçar a noite, meu bem. Continua a espantar suas mosquinhas na tentativa de encontrar o seu encanto e o que brilhe no seu olhar.
Ao sofá. Ao relento. À espera do esterno inesperado. E vambora finalmente então.
(Adriana Calcanhoto. “entre por essa porta agora. E diga que me adora. Você tem meia hora pra mudar a minha vida. Vem, vambora.” E de fato o tempo leva....nas cinzas das horas!)
IndignaçõesInternas.
O fato de perceber as coisas que me satisfazem e são independentes da dependência externa. A interferência de outrem já não acumula prazeres.
Seria eu satisfatoriamente plena sozinha?
Resto aqui, sem companhia alguma e já não sinto vontade de procurar por alguém.
Não sei se este fato consumado é triste, ilusório ou um bom presságio.
Afinal de contas, toda a mulher quer ser plena por sua pessoa, e independente de um relacionamento que cause dependência extrema. Pois então. É o que possuo. Sinto-me feliz em minha própria companhia e me basto em saudar a mim mesma por meus feitios. Minhas realizações me completam. E não sinto mais a necessidade de partilhar das coisas mundanas.
Seria eu passível viver completamente sozinha?
E meus sonhos desde menina, encontrar alguém, casar e constituir família?
Completamente anos 50, eu sei. Mas depois de conhecer melhor o sexo oposto e compreender que não é assim tão fácil relacionar-se, percebo que não estou disposta a abrir mão de meus preceitos e valores em prol de alguém por mais que pareça valer a pena.
Seria extremamente egoísta pensar em si, e em prioridades de satisfação pessoal que excluem a participação alheia?
Sempre quis decidir por tudo sozinha, e seguir meu caminho com as próprias pernas. As escolhas são incumbidas somente a mim, pois quero chorar em minha derrota e vibrar em minha glória. Sempre achei, talvez por convenções sancionadas socialmente, que devesse ter alguém para dividir tudo. Compartilhar. Mas o que sempre fiz foi doar uma grande parcela de valor a pessoas que não precisavam. Sou tão útil a mim mesma e tão inútil às pessoas que julgo excelentes. Talvez sua excelência não aplique nem a elas mesmas. A essência que possuem e que me satisfaz não é por elas sentida da mesma maneira.
Penso que encontrar a mim mesma seja o mesmo que perder-me. Isolo-me do mundo exterior por medo que este me afete com seus conceitos mesquinhos e vazios. A avaloração que este mundo está preenchido não é o que eu quero para minha vida.
Ando pensando tanto em minha vida e em meu momento que às vezes penso que isso me afasta de momentos compartilhados.
Afasto toda e qualquer hipótese de amor que possa me ocorrer. Estou encontrando a minha jornada e parece-me que não há espaço para mais ninguém.
E quanto mais me preencho de mim mesma, mais vazia fico... pois ao meu lado no sofá resta minha xícara de vitórias. Minhas coleções anônimas de fantasias e minha colcha de retalhos... pedacinhos do que não se forma, do que precisa de mais alguém para se tornar algo por inteiro.